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ESTA HISTÓRIA NÃO É SOBRE PLANTAS

Quando o céu começou a clarear, levei para a varanda o último gole de leite de pistache e uma carta escrita vinte anos antes.

Do outro lado da tela de proteção havia fios, pombos, prédios, um pouco de verde e um balão subindo devagar. Uma paisagem comum. Ainda assim, bonita.

Durante anos me lembrei de um sonho contado por alguém que foi muito importante na minha vida. Nesse sonho, uma filha sua receberia o meu nome. Eu sempre achei curioso. Também me perguntava se algum dia teria um filho e lhe daria o nome dele.

O balão subia.

Foi então que percebi que talvez eu tivesse entendido tudo errado.

Talvez a criança daquele sonho nunca tivesse sido uma criança.

Talvez fosse uma versão futura de mim.

A de hoje.

A que finalmente recebe a mensagem daquela carta.

Algumas pessoas passam pelas nossas vidas e seguem adiante; outras permanecem de um jeito diferente. Tornam-se o logradouro da nossa própria linguagem. A nossa forma de observar as coisas. Ensinam um novo modo de olhar para uma cidade, uma janela, uma página, um amanhecer. Em raríssimas ocasiões, a vida é generosa —honestamente, pão-dura — e resolve economizar embalagens, entregando tudo junto: um pacotão completo, na mesma pessoa.

Há paisagens que vejo com os meus olhos.

Há outras que vejo também através dos olhos dele.

Talvez seja essa a verdadeira herança dos afetos: não aquilo que fica para trás, mas toda a ternura que continua crescendo dentro de nós.

Exatamente como as plantas.

Hoje quero lhes contar sobre Cipollina e Magda.

Tenho um hábito um tanto quanto inusitado: gosto de presenças silenciosas na minha rotina. E também dos barulhos que a maioria não suporta, em certos horários.

Em 2013, ao fixar endereço em Roma, adotei uma planta. Não sei dizer exatamente a
sua espécie, algo próximo de uma Dracaena marginata. Batizamo-la Cipollina, eu e uma amiga que se fez sua madrinha.

Ela me acompanhou pelas quatro estações e, coitadinha, até nevasca para fora da janela a bichinha aguentou, eu sem saber ao certo onde deixá-la para que respirasse, em pleno inverno, no limiar das muralhas da antiga Roma — o bairro era San Paolo.

Ela tinha cerca de 15 centímetros quando veio morar comigo; hoje tem cerca de três metros e ganha espaço aéreo em uma das varandas do meu apartamento, que muito em breve não será mais meu.

Adquirida em uma IKEA, a minha “cabelos de cebolinha” é clandestina. Veio dentro de uma bolsa grande da mesma loja, bagagem de mão, e passou por vários raios X de aeroportos internacionais. Atravessou céus e oceanos escondida porque eu me recusei a abandonar minha companheira italiana. Fiz promessas possíveis e impossíveis para todos os deuses da imigração.

Hoje é uma gigante de dupla nacionalidade, testemunha de mais de uma década da minha vida.

Calha de, na vida, escolhermos algumas testemunhas. Em raras ocasiões, porém, elas é que nos escolhem, permanecendo imóveis enquanto atravessamos todas as nossas metamorfoses.

De Roma ao Rio e, por fim — até agora — Friburgo, Cipollina me viu ser estudante e me tornar arquiteta. Me viu filha de pais vivos e, atualmente, órfã de pai. De namorada a ex-namorada e de noiva a divorciada. De professora universitária a artista.

Conquistou um lugar que nenhuma das outras poderia ocupar: o de ter chegado primeiro.

Tornou-se a memória-planta.

A mais antiga testemunha daquele apartamento que viria a abrigar outras quarenta e tantas espécies vegetais.

Meu refúgio por longos cinco anos – confusos, conturbados e vitoriosos cinco anos.

Há três anos ganhou um irmão peludo de quatro patas: meu Zeca.

Hoje, 2026, pouco depois das cinco da manhã de uma primeira semana completa como novamente carioca, dezoito por cento de bateria no celular, eu adotei a Magda.

Magda Ficus Elastica Tineke Mies.

Comemorando uma semana em uma locação que é fruto do meu suor — e só dele —, a Magda veio silenciosamente lembrar a mais nova residente de uma construtora de que crescimento também pode ser soturno.

Bem-vinda à família, Magdinha.

São quase seis da manhã do mesmo domingo. Permanecem adormecidos os dezoito por cento de bateria do celular pessoal, sem recarga desde a madrugada anterior.

A vantagem de ter um outro celular, cem por cento corporativo, é essa: não há sobrecarga de uso.

Na verdade, ter uma vida corporativa paralela a uma vida em que é possível desligar-se do trabalho por algumas horas é formidável. Mais humano do que eu jamais supunha. Libertador. É sentir-se viva.

Nesse sentimento há uma janela com vista para a felicidade.

Há uma semana habito minha primeira locação de vida nômade.

Minha vida agora não é feita de certezas — como nunca foi. Vivemos dentro dessas ficções que a humanidade ainda insiste em apresentar como convicções.

Há uma semana acordo, dou meus primeiros passos e encontro a varanda do andar térreo cercada por plantas ornamentais bem cuidadas, num misto de verde, amarelo e vermelho.

Respiro profundamente e sequer percebo que estou sorrindo.

A vida nômade deveria pressupor bagagens rasas. Entretanto, os iniciandos deste estranho grupo contemporâneo de homo sapiens sapiens têm a regalia de portar malas exageradas.

Em uma semana percebi que minhas roupas foram demais para a nova rotina; meus objetos especiais, não.

Trouxe porta-retratos, capa de almofada, fronhas, cobertinha de viagem, um Sansão de pelúcia que me recorda do meu lado protagonista do Maurício de Sousa de ser, porta-incenso, casinha de madeira decorativa, mais porta-retratos, meu porta-bijuterias, câmera Instax, projetor de imagens, notebook com toda a minha parafernália, minha placa de arquiteta com as especialidades e minha pena de ouro.

Trouxe também uma capivara de pelúcia que dança — presente de despedida da mamãe —, uma pelúcia comprada para a minha Mia, que me olha lá do céu, a primeira cobertinha do Zeca e, confesso, um brinquedinho furtado da sua coleção.

Além, é claro, da minha Bialetti preta.

Alguns utensílios de cozinha. Alguns mantimentos. Produtos de limpeza. Produtos de higiene.

Ao desfazer as bagagens, a hospedagem se fez abrigo.

Mas… faltava algo.

Descobri que nômades também criam raízes.

Criam como quem educa filhos para o mundo: aprendem a carregá-las dentro do coração.

Ontem, pleno sábado em horário comercial — e livre, para a maioria —, fui pela primeira vez ao Atacadão.

Um acontecimento de tal magnitude não poderia adentrar as minhas lembranças apenas pela aquisição de uma caixa com dois mil e quinhentos copos descartáveis.

Foi quando me apaixonei perdidamente pelas plantas e seus preços.

Pela bagatela de quarenta e nove reais e noventa centavos, ganhei uma roommate.

A Magda está enroladinha em seu canto, ao lado do sofá, à meia-luz do pendente de cristais que sepultou duas de suas quatro lâmpadas G9 de forma autônoma.

Eu, ainda sob o efeito da felicidade que vem da paisagem da minha varanda nova, espero o sol nascer para me deitar.

É domingo. Cheguei há pouco do trabalho. Obra em plena madrugada. A cidade desperta enquanto eu me preparo para dormir, meu cafezinho de toda noite em punho.

Há algo de extraordinário nessa inversão dos relógios: cumpro uma escala seis por um e, quiçá, por isso tenha reaprendido a escutar a madrugada.

Estou com meu fuso como sempre gostei: acordada no turno invisível da cidade, ativa, escutando zumbidos de alarmes, burburinhos que são quase um ruído branco, além de máquinas de solda e pouquíssimos pares de botas de obra com biqueiras de aço percorrendo os corredores de um shopping que a grande maioria dos humanos jamais
terá a oportunidade de experienciar.

Para quem chegou no último dia de maio — já que em maio todos podem ser pescadores —, preparo-me para os peixes grandes de setembro.

E para um novo destino a descobrir.

Malas rasas e cheias de vínculos.

Magda na caçamba de uma picape.

Mais bagagem profissional e de vida.

Hemingway, o velho, o mar e Bia.

Uma confluência de infinitos que se descortinam em um novo horizonte — e no nascer do sol deste Rio de Janeiro abençoado por Deus, suor e muitos fusos de se viver diferentes.

A Cipollina acompanhou uma década.

A Magda brotou para acompanhar uma travessia.

A primeira conheceu quem eu fui.

A segunda chega justamente quando começo a descobrir quem serei.

Outras plantas virão; mas Cipollina será sempre Cipollina.

Crônicas Cariocas

O portal Crônicas Cariocas nasce do sonho do jornalista Francci Lunguinho de ajudar novos autores a divulgar seus textos, principalmente sem os empecilhos que os grandes portais impõem.

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